Seu dom




Estou sem sono, não sei no que pensar. Tive um dia longo, absolutamente nada a dizer. E vem a música. A mesma de ontem, da janela ao lado. Como você sabe o que eu gosto? 

Eu deito e escuto atentamente. São notas perdidas, ardentes, é você dizendo que não sabe o que fez de errado. Dizendo nada, claro, é só na minha cabeça. Te imagino dedilhar o violão, contraio meu corpo. Te imagino cantarolar seu som, me escondo. Acho que meu travesseiro não gosta muito da ideia de estar só. Mas, tudo bem, a música flui e enche o quarto, me escondo, me contraio, só sinto. Também deve atrapalhar quem mora no andar de baixo, mas eu não ligo. É engraçado como sua música fala de alguém e nem fala nada. 

Ouço você respirar fundo porque errou o mesmo acorde três vezes. E aposto que deve ter rido de nervoso ao arrebentar mais uma corda, e que parou pra pensar no que está fazendo. De novo. De novo e de novo, como um vício. Ouço você ecoar e me reviro. Deixo os braços sobre a cabeça. Imagino se as notas seriam as mesmas se alguém estivesse assistindo. Ou se afastasse seu violão por puro capricho. Mas a canção continua. E eu sinto, é o que eu faço de melhor. Eu sinto porque é isso que faço quando não sei o que dizer. Mas não importa. Não importa porque escolhi um piano e não sei dedilhar. E porque é o dom de um estranho que me faz dormir.


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