Quando a gente cresce e as coisas ganham forma. É nesse exato momento que a gente nota, ou ao menos começa a notar, o quanto idealiza os arredores. É nessa hora que vêm as facilidades, as comodidades, a mania de achar que tudo deve ser como tem que ser. Na verdade, é nessa hora que a ficha cai, que o mundo adulto cerca e que a gente se pergunta coisas que antes, estejam eles por perto ou não, foram nossos pais que responderam por nós. Sobre não saber, só posso dizer uma coisa: ainda é a melhor saída.

Não sabemos o que vem depois do hoje. Sim, planejamos, organizamos, tentamos, procrastinamos. Mas, não adianta, ninguém sabe o que vem depois do relógio. E é por isso que acredito que não saber é o caminho. Quando não pensamos demais, idealizamos pessoas, imaginamos situações ou fazemos qualquer coisa que limite nossas possibilidades, essas que ainda subestimamos, as coisas fluem com mais naturalidade. Não que devamos estudar o destino ou calcular probabilidades de qualquer coisa cósmica, mas não é preciso muito para entendermos que tudo que é natural simplesmente se adapta. Sim, tudo acontece porque precisa acontecer.

Sobre não saber, ficam as minhas dúvidas sobre o próximo trabalho, sobre a próxima poesia ou a próxima paixão. Ficam as dúvidas sobre os meus medos, as certezas das minhas falhas e a mania terrível que ainda tenho de bagunçar as próprias unhas. Características pessoais? Características? Talvez. Mas me sinto muito mais à vontade quando não preciso rotular o que não sei. Aliás, sobre não saber, incluo minhas próprias questões, minhas próprias barreiras e tudo aquilo que um dia, ou ainda, não fui capaz de aceitar. Afinal, saber as coisas é alto demais e eu gosto daquilo que posso alcançar, sobretudo com o tempo.


Me floreio, anseio, temo ficar
Me revolto, me envolvo, temo amar
É que sentido não faz, algo não mais
É que sigo capaz de me sabotar

Escolho, troco, não sei o que usar
Decido, revolto, não sei como pensar
Talvez tenha chance, precise falar
Talvez minha chance esteja em mudar

De memórias, de pessoas
De caminhos a percorrer
De histórias, de loucuras
Que a vida prevê

Ao seu lado.



Quando não tivermos saída
Quando nos faltar a vida
Quando passar o tempo
E a vontade não

Quando estivermos feridos
Quando formos partidos
De coração ferido
E de pés no chão

Isso pode mudar
Se a gente mudar
Se tudo voltar
A ser o que era

Quando formos de nós
De dar fé, não de nós
Quando formos a sós
Talvez faça morada.


Te envolveria, te abraçaria tão forte que você sentiria falta de mim até quando estivéssemos juntos. Eu te beijaria, viu, mas seria tão pessoal que você perguntaria ao final de cada beijo quantos mais ainda teríamos. E passaria as mãos pelas suas costas, e sentiria o teu perfume até não poder mais.

Eu cederia, seria refém dos próprios sentimentos, se pudesse. E ficaria do seu lado mesmo que não pudéssemos nos olhar nos olhos. É sério, eu faria essas coisas, mas só porque o nosso nível de intimidade permite. Só porque o que eu sinto você sente, só porque você mente sobre isso e evita chegar tão perto.

Te envolveria, rapaz, te deixaria tonto. E me sentiria da mesma maneira, porque você sabe que o teu sorriso me derrete, tua paz me acomoda. Você sabe tudo isso, mas nem sempre se importa porque repetimos a mesma história, dia após dia. E eu mentiria, se pudesse. Evitaria o possível para que não nos sentíssemos tão sozinhos e tão juntos.

É, sozinhos e juntos. É isso, exatamente isso. Te beijaria, te encontraria, te abraçaria e não deixaria passar em branco o que você sente tão cinza. Te amaria, eu acho, e faríamos de tudo isso uma grande piada ao final do dia. Só que não.



Pra você, pras suas desculpas. Tô de cama pra tudo que não acrescenta e, quando melhorar, quando você tiver passado, vou levantar dez vezes mais forte. É assim, sou assim: não brinca comigo porque eu também sei brincar.

De cama, eu disse. Não quero abraços, beijos, declarações, qualquer coisa. Cansei de sair e voltar sozinha, cansei de sair e não estar acompanhada, apesar dos seus passos. Cansei se ser a melhor opção no dia frio, mas a menos cotada no dia da noitada. Cansei de criar penteados, chamar de namorado, pegar na mão enquanto ando e me despedir cedo. Pra você, eu não vou existir mais.

É que é assim que funciona: há uma mulher e uma criança. Há duas e outras mais guardadas, então eu sei fazer pirraça, mas sei me virar. Sei ficar sozinha e não precisar de um corpo que, às vezes, é só um corpo. Sei, cá com meus botões, enlouquecer outros como você. Então, é assim que vai ser. Cansei de ser só por ser.

De cama, pra você. E vou abrir a porta pra quem eu quiser.



Penso que sim, que daria certo. Se você voltasse, se tudo voltasse. E se fizesse diferença, porque voltar nunca foi o ideal. Penso que duraria, já que estaríamos juntos e seríamos dois adultos, saberíamos lidar com o que não soubemos antes. E penso que sim, que o encanto seria o mesmo, muito embora saibamos que nem tudo o que volta faz sentido. 

Porque é você comigo, não você com elas. Sou eu e você, somos nós dois sem referências externas, sem casinhos. Sem repetidas desculpas sobre o que faltou aquele dia. Porque é assim que deve ser, não como era e como fingíamos que funcionava. Por dias, por anos. Por instantes que duravam tanto que podíamos contar nos dedos as horas livres de qualquer discussão. 

Penso que sim, que poderíamos. Juntos, mesma página e mesma vibe, apesar de saber que, até hoje, outra pessoa ocuparia melhor o seu lugar. E sabíamos, e vivíamos. Dois adolescentes adentrando terras perigosas e achando fácil guardar parte daquilo num potinho, como se nada fosse estragar com o tempo. Olha, te entendo, eu também achava que teria o mundo. Mas, só, sem você. Sem perguntas, sem dúvidas, sem amores de final de semana. 

Penso que sim, termino, que daria certo. Pena que começou na hora errada. 



A mente se esforça, mas o coração bate o pé. É que nem sempre é fácil deixar passar, nem sempre é fácil acostumar ao fato de que nada é igual. Faz falta, afinal. E não há nada que mude isso. Não quando o assunto é o que ficou de lado, o que ficou para que se pudesse seguir. É a vida, não é? Temos de seguir vez ou outra, não importa o que passa e o que fica. Às vezes, temos que sair, pé ante pé, e só olhar para trás quando o objetivo é alcançado. Às vezes, fato, temos que deixar nossas vontades de lado, ou então a vida trava.

A verdade é que com o tempo tudo fica mais claro. Percebemos nosso erros, nossos acertos, tudo. E começamos a entender o sentido de estarmos aqui. O sentido de vivermos plenamente, mas com tantas saudades e situações. Tantas dúvidas, vontades e pessoas, as que às vezes precisamos deixar passar. Tecnicamente, passar. Não até o fim. Tem sido assim pra mim. E está tudo bem, a vida segue. É que a mente se esforça, mas, às vezes, o coração bate o pé. Inevitável.




É quando as palavras tomam forma. Tomam tempo e tomam gosto, quando eu gosto do que faço. É quando um verso vira mato, quando uma rima vira prosa. E é quando demora, por mais que me distraia. Quando cai a noite, é hora de mergulhar em suposições, explosões e tudo mais que constitui cenário. É quando me imagino, quando crio, quando ensino e aprendo com as próprias criações.

Quando cai a noite, cai o olhar. E chegam as nuvens, que são como borracha. Apago as memórias, crio outras, as novas, e faço com que o meu mundo cresça um pouco mais. São momentos inegáveis, são histórias inegáveis e escrevo cada uma como se soubesse o que digo. Mas quando cai a noite, é isso, é céu estrelado mesmo que a terra traga problemas. E ainda assim, é bonito. Porque escrito, eu penso, é porque alguém escreveu.

Quando cai a noite, meu tema sou eu. E ai de mim que escreva mal.


Se admitir fosse fácil, gostar seria só pra quem sabe. Sabe, só pra quem pode. Se fosse fácil o contato, se fosse fácil o tato, então, ah... gostar seria só o brinde.

Acho que estamos em fase de testes. Pra ser sincera, estamos sendo testados. Sozinhos, lado a lado, rodeados de gente tola. É, gente tola. Gente que sente, prende o que sentimos e então nos jogamos fora. 

E estamos fora de forma. Não gordos ou magros, altos ou baixos. Fora de forma, sabe, foco zero e percepção de sentimentos forçada. É que nada mais tem arrepiado tanto quanto o que já acostumou.

Por isso, seguimos assim. E confiamos na verdade de que estamos bem quando não estamos. Nem eu e o meu jeito de ser, nem você e o jeito de esquecer. E confiamos na ideia que temos de que temos mesmo o que é melhor pra nós dois. Ah, você sabe, nem preciso dizer. 

Nem preciso.



De coração e de alma. Porque melhora, sabe, por mais que a gente pense o contrário.

Não que eu esteja curada, claro, ainda há o que andar. E rezar, e pedir, agradecer. Ainda há muito o que crescer no meu campo emocional, de modo que nada, nem mesmo a falta que me faz, seja tão sentida. 

Vai melhorar, menina, você sabe que vai. E sabe que o caminho é longo, mas construtivo. E é bonito, como você sempre imaginou que fosse. Bonito como ele dizia que era. 

Vai melhorar porque você tem a mesma força do caminho. Trilha sozinha, mas trilha acompanhada. Vai melhorar porque, do nada, você vai perceber que passou. Passou a tempestade, a dificuldade e todo o medo que você tinha de chorar. 

Porque é bom chorar, porque é bom sentir. Vai melhorar, menina. Sorri. Sorri, mas olha pra frente.