A culpa que se sente
O carisma que falta
Não é você o que sobra
Na presença do que irrita

A verdade que se esconde
A saudade que continua
Não é você a culpa
Do que se vive por fora

Nem por dentro, se indiferente
Nem nos cantos, se é corrente
Não é culpa de quem sente
O pouco que se aflora

Não é você o centro
O que não vê o intenso
Dentre pessoas rasas

Não é você.


Em pensamentos, em memórias, em todas as coisas que ela possa ter dito. Estás perdido.

Sim, perdido. Sei que estás. E reparo nos teus olhos quando as fotos parecem felizes. Não duvido, vejas bem. Acho que a felicidade acontece aos poucos, no dia a dia, então não duvido que estejas a alcançar o que busca ao lado dela. E desejo-te toda a felicidade que possam encontrar. Mas é verdade que teu olhar denota furacão e não calmaria. É verdade que o que vejo te acontece todos os dias.

Vejo em espaços em branco, preenchidos pelo trabalho. Vejo pela quantidade de postagens em que a enaltece. Em comentários, em respostas. Vejo em apostas o que imagino que seja dormir pensando em algo mais. Não que seja realmente assim, são só suposições. Mas sinto como se o teu caminho o tivesse levado tão longe quanto desejas, mas não na direção que querias. Não na direção que desejavas ter ido. E conheço-te pelos ouvidos. Pelo tom de voz das tuas gravações.

Sim, perdido. Sabemos que estás. E reparo, no que estou a escrever, a realidade da vida. Pois é verdadeiro o amor, mas sempre pousa aonde quer. E nem sempre temos armas ou argumentos para fazer voltar atrás o que deve seguir, mesmo torto.

Em pensamentos, em memórias, em todas as coisas que ela possa ter dito: estás perdido. E se pudesse, eu gostaria de encontrá-lo.


Meia-noite. Meia-noite, lua cheia e uma cabeça cheia de sonhos. Não me surpreenderia se percebesse que ainda existe um sentimento.

Quando encontro alguém, é automático. É sintoma, é doença, é como se o meu inconsciente resolvesse pensar e trocasse de lugar os pensamentos e as vontades. É normal. Meia-noite, diante da solidão que às vezes surge, meio-dia, diante da correria que faz sentir falta. É normal, é esperado. Mas me deixo de lado quando noto que passei dos limites. Quando a saudade aperta sem sentido, quando o sorriso é sem motivo.

É que é doloroso quando acaba, é desgostoso pensar. É que hoje em dia é mais fácil se apegar e mais difícil estar por perto. 24 horas, convivência. 24 horas, permanência. São tempos difíceis pra quem tem palavras fortes. Pra quem sente forte, pra quem só quer um clique. Pra quem tem na cabeça a certeza de que o amor nasce do dia a dia, não de uma noitada perfeita.

Meia-noite. Meia-noite, lua cheia e uma cabeça cheia de sonhos. Não me surpreenderia se percebesse que ainda existe um sentimento. Porque existe, e alguns são pra isso mesmo: pra acordar.
Minha dose de cama, minha voz ao vazio. Tudo que eu sinto quando o toque é dedilhado. Minha paz, meu certo e errado. Meu jeito de sorrir diante do caos.

Defino, em mil palavras, o que sinto num só corpo. E é pouco, bem pouco. Faz sentido comigo, mas faz com os loucos. E enlouquece, quebra sensações.

Limpa meu escuro, limpa o impuro. Minha própria dose de mundo. Meu canto, refúgio, meu jeito único de sobreviver. Meu jeito de sorrir diante do caos, diante de mim. De viver.

Meu jeito de viver.
Você.
Isso, o amor. Eu achei que era fácil, mas aprendi de vários jeitos que não tem nada de fácil. Agora, bem agora, quem conta sou eu.

Acreditei, mergulhei. Foram tantas as dicas, as vidas e os medos que eu acreditei. E amei, amei sim, mas do jeito errado. De jeitos quebrados que me disseram certos. De jeitos confusos que pareciam tudo, menos jeitos.

Isso, o amor, eu achei que acontecia num piscar de olhos. Ou num toque de mãos, ou numa mensagem de corações que durasse a semana a inteira. Por muito tempo, eu fui uma espécie de pássaro. E acreditei nos meus encantos, na minha liberdade emocional, mas sempre esperando por companhia. Esperando, porque não podia procurar.

Não, não, não se procura o amor. Ele vem. Mas por mais que eu repetisse, nada mudava. Avançava a vida, avançavam os tombos, era isso o que acontecia. Não se procura o amor, eles diziam. Você deve esperar. Mas isso cansa. Então quis escrever. Drenar de mim o que ficou só e por várias vezes se preencheu, só não continuou. Porque, bom, o amor é assim. É passageiro.

Eu achei que era fácil, o amor. Achei mesmo. Agora, no entanto, eu vejo. E sorrio, e desdenho. E brinco com o meu tempo, porque ele não tem culpa das minhas escolhas. Nem das bolhas, nem das falhas. Nem das pessoas, que insistem em categorizar a felicidade das outras. Aliás, talvez seja por isso.

Que venha o próximo. Voe.




Sentado, bem na sua. Foi assim que te vi. Foi assim que te reparei, que distraí o que pensava. Você estava ali, bem pertinho, quietinho e lendo um livro. Enquanto isso, a folia acontecia. Havia empregadas, piratas, unicórnios e havaianas. Havia gente de todas as formas fazendo Carnaval.

Você, no entanto, nem pareceu ligar. Passou página por página, mudou de lugar. E quando eu pensava que não te veria mais, sentou-se ao meu lado. Pude ler o que lia, sabia? Li contigo até a página cinco. Era sobre a história de algum lugar e a evolução política e econômica naqueles dias. E você lia. Você lia.

Foi assim que pensei como seria se desse certo. Se não fosse só um pensamento, dê saltássemos no mesmo vagão. Foi ali que percebi como é comum conhecer as pessoas. Como é comum, como é corriqueiro. Podia haver o mundo inteiro naquele espaço, mas foi ali, do seu lado, que entendi a ordem natural das coisas. Natural mesmo, questão de sorte.

Sentado, bem na sua. Foi assim que te vi. Pena que chegou minha vez de saltar.

Porque respira, porque faz cria.

Hoje eu tô poesia, mas tô de verdade. Das que misturam histórias e memórias aos grandes escritores e das que misturam o que eles escrevem ao dia a dia. Hoje eu tô poesia, tô lida, tô mestre. Hoje eu tô naqueles dias em que nada, absolutamente nada que preste, sai da cabeça até que adquira versos e palavras soltas cuja rima é só provável.

Hoje eu tô arteira, tô delicada. Hoje eu tô com vontade de casa. Daquelas que dão em qualquer lugar, mesmo no quintal. Daquelas vontades que te tomam e só passam quando você dorme. Hoje eu tô enorme, mas também tô pequena. Por culpa da vida, das coisas serenas. Por culpa da via que eu escolhi. Via minha, via vida. Tô poesia.

Quem diria.






Aqui, em paz
Pensando no que fazer
Pensando no que errar

Sim, errar
Eu não preciso de acertos
Não quando eu cresço
A cada passo em falso

Aqui, em paz
Pensando no que decidir
Pensando pra onde ir
Pensando em não ficar

No meu lugar.


De mim, do que sinto e do seu toque. Independente de qualquer coisa, eu realmente não ligo. Se o que estamos dizendo é verdade, então o que importa é o que vivemos. Dia a dia, alma a alma. Cada hora com seu significado, mesmo que termine em final. Sempre termina em final.

Do começo da história, do que guarda a memória. Independente da briga que tivemos ontem. Independente do que resolvíamos juntos, do que não resolvíamos e do choque que tínhamos quando as paredes significavam o limite.

Sabe, mesmo que não tenha dado certo, mesmo que tenha sido passagem: nunca foi. E acho que é por isso que agora estamos nisso, no vai e não vai. Na reação de dois casais que sabem que não são, que não merecem. Na relação entre pessoas que, na verdade, se pertencem. Independente do que aconteça.

Independente do que aconteça.