Minha dose de cama, minha voz ao vazio. Tudo que eu sinto quando o toque é dedilhado. Minha paz, meu certo e errado. Meu jeito de sorrir diante do caos.

Defino, em mil palavras, o que sinto num só corpo. E é pouco, bem pouco. Faz sentido comigo, mas faz com os loucos. E enlouquece, quebra sensações.

Limpa meu escuro, limpa o impuro. Minha própria dose de mundo. Meu canto, refúgio, meu jeito único de sobreviver. Meu jeito de sorrir diante do caos, diante de mim. De viver.

Meu jeito de viver.
Você.
Isso, o amor. Eu achei que era fácil, mas aprendi de vários jeitos que não tem nada de fácil. Agora, bem agora, quem conta sou eu.

Acreditei, mergulhei. Foram tantas as dicas, as vidas e os medos que eu acreditei. E amei, amei sim, mas do jeito errado. De jeitos quebrados que me disseram certos. De jeitos confusos que pareciam tudo, menos jeitos.

Isso, o amor, eu achei que acontecia num piscar de olhos. Ou num toque de mãos, ou numa mensagem de corações que durasse a semana a inteira. Por muito tempo, eu fui uma espécie de pássaro. E acreditei nos meus encantos, na minha liberdade emocional, mas sempre esperando por companhia. Esperando, porque não podia procurar.

Não, não, não se procura o amor. Ele vem. Mas por mais que eu repetisse, nada mudava. Avançava a vida, avançavam os tombos, era isso o que acontecia. Não se procura o amor, eles diziam. Você deve esperar. Mas isso cansa. Então quis escrever. Drenar de mim o que ficou só e por várias vezes se preencheu, só não continuou. Porque, bom, o amor é assim. É passageiro.

Eu achei que era fácil, o amor. Achei mesmo. Agora, no entanto, eu vejo. E sorrio, e desdenho. E brinco com o meu tempo, porque ele não tem culpa das minhas escolhas. Nem das bolhas, nem das falhas. Nem das pessoas, que insistem em categorizar a felicidade das outras. Aliás, talvez seja por isso.

Que venha o próximo. Voe.




Sentado, bem na sua. Foi assim que te vi. Foi assim que te reparei, que distraí o que pensava. Você estava ali, bem pertinho, quietinho e lendo um livro. Enquanto isso, a folia acontecia. Havia empregadas, piratas, unicórnios e havaianas. Havia gente de todas as formas fazendo Carnaval.

Você, no entanto, nem pareceu ligar. Passou página por página, mudou de lugar. E quando eu pensava que não te veria mais, sentou-se ao meu lado. Pude ler o que lia, sabia? Li contigo até a página cinco. Era sobre a história de algum lugar e a evolução política e econômica naqueles dias. E você lia. Você lia.

Foi assim que pensei como seria se desse certo. Se não fosse só um pensamento, dê saltássemos no mesmo vagão. Foi ali que percebi como é comum conhecer as pessoas. Como é comum, como é corriqueiro. Podia haver o mundo inteiro naquele espaço, mas foi ali, do seu lado, que entendi a ordem natural das coisas. Natural mesmo, questão de sorte.

Sentado, bem na sua. Foi assim que te vi. Pena que chegou minha vez de saltar.

Porque respira, porque faz cria.

Hoje eu tô poesia, mas tô de verdade. Das que misturam histórias e memórias aos grandes escritores e das que misturam o que eles escrevem ao dia a dia. Hoje eu tô poesia, tô lida, tô mestre. Hoje eu tô naqueles dias em que nada, absolutamente nada que preste, sai da cabeça até que adquira versos e palavras soltas cuja rima é só provável.

Hoje eu tô arteira, tô delicada. Hoje eu tô com vontade de casa. Daquelas que dão em qualquer lugar, mesmo no quintal. Daquelas vontades que te tomam e só passam quando você dorme. Hoje eu tô enorme, mas também tô pequena. Por culpa da vida, das coisas serenas. Por culpa da via que eu escolhi. Via minha, via vida. Tô poesia.

Quem diria.






Aqui, em paz
Pensando no que fazer
Pensando no que errar

Sim, errar
Eu não preciso de acertos
Não quando eu cresço
A cada passo em falso

Aqui, em paz
Pensando no que decidir
Pensando pra onde ir
Pensando em não ficar

No meu lugar.


De mim, do que sinto e do seu toque. Independente de qualquer coisa, eu realmente não ligo. Se o que estamos dizendo é verdade, então o que importa é o que vivemos. Dia a dia, alma a alma. Cada hora com seu significado, mesmo que termine em final. Sempre termina em final.

Do começo da história, do que guarda a memória. Independente da briga que tivemos ontem. Independente do que resolvíamos juntos, do que não resolvíamos e do choque que tínhamos quando as paredes significavam o limite.

Sabe, mesmo que não tenha dado certo, mesmo que tenha sido passagem: nunca foi. E acho que é por isso que agora estamos nisso, no vai e não vai. Na reação de dois casais que sabem que não são, que não merecem. Na relação entre pessoas que, na verdade, se pertencem. Independente do que aconteça.

Independente do que aconteça.

Não tem medo, nem vez
Nem chance que se perde
Se mudar

Se tentar, se repartir
Se começar do zero
E sorrindo

Porque sim, porque é seu
Porque mudar faz parte do todo
Porque você merece mais
Mais certezas
Mais apoio

Muda, não tem medo
Não tem nada que possa mudar
Quem você é já é sendo inteiro.


Coloca as mãos na minha cintura, me beija até o fim do dia. Continua dizendo coisas bonitas, mesmo que estejamos meio brigados. Continua, porque me faz perceber que a vida é assim, cheia de altos e baixos, mas cheia de amor.

Continua sendo um doce quando quer e quando não quer, continua brincando comigo na primeira hora da manhã. Continua, te digo, porque é gostoso soprar no seu ouvido enquanto você acorda.

Coloca o som pra tocar e me puxa com você. Continua dançando comigo, mesmo que a música acabe. Continua me dizendo o que sente quando eu digo o que sinto, continua mentindo quando eu pergunto se você também me ama. Continua, continua essa dança.

É que amor se faz no dia a dia.




Ao que é meu, ao que crio
Ao que vem de dentro
De verdade

Pertencer é arte
É pintura
É cor que brota
É sonho que faz

Pertencer, palavra pura
É a arte de fazer parte
De encontrar um caminho
Que não se caminha só

Ao que é meu, ao que crio
Ao que vem de dentro

Eu que sei.