O que sobressai
O que nunca sai
O que vira evidência
A clareza dos fatos

O que nunca muda
O que muda sempre
O que sempre mente
E nunca acrescenta

Saída, talvez
Saída uma vez
Repete-se o trecho
Repete-se a chance

Daquilo que dura
Daquilo que toca
Do que faz morada
Na casa dos outros.


Entendam, não é regra. Amizade não vem com contrato. O que eu sei sobre o assunto muito me envolve, mas muito me denuncia. Afinal, quem nunca foi amiga e depois descobriu não ser? Amizade, meus caros leitores, é coisa que se preza. E zela, e guarda. E não passa a mão na cabeça só porque existe uma ligação.

Amizade, quando real, não vê cara ou residência. Nem distância ou paciência, nem signo ou crença. O que basta para que duas pessoas sejam amigas é conviver, é perceber na convivência a vontade de continuar juntas e passar cada obstáculo do tão esquisito coleguismo. Aliás, vamos falar sobre isso: o que é coleguismo? São pessoas que você conhece, mas não são íntimas? No meu mundo, essas são só conhecidas. Coleguismo, para mim, envolve algum tipo de parceria, de entendimento. Pode ser no trabalho, por exemplo, ou em um curso. Pessoas que nem conhecidas são, mas precisam dividir o mesmo espaço.

O que eu sei sobre amizade envolve, na verdade, um tipo de amor que não mais se nota. Envolve cuidado, envolve carinho e principalmente a certeza do que se pode ou não falar e fazer. Amigos de verdade não criam situações falsas, nem causam situações desagradáveis. Mas brigam, brigam sim e às vezes por besteiras. Brigam por ciúmes, por falta de ciúmes, é um tipo de relação que nem sempre os pais entendem. Bom, novamente, não é regra. Existem amigos, existem grupos de amigos, mas cada um tem sua pequena fortaleza. É preciso também respeitá-los como são. Estilo, preferência sexual, falamos de escolhas. Amigos de verdade não precisam de explicações.

Seja um bom amigo, tenha um bom amigo. Mas conviva. E sorria, presenteie, surpreenda. Muitas vezes, o que falta em uma amizade é encontrar o mesmo ponto de partida que se tinha no começo. E vamos falhar, admito. Às vezes leva um tempo, sobretudo com outros amigos chegando, com alguns mais antigos indo embora. Mas é possível, é natural. O que eu sei sobre amizade é que é o caminho mais bonito depois da família. E deve ser valorizado como tal.

Imagem
Sorri como ontem, me abraça como sempre. Me segura porque a sensação é de que vou me jogar e preciso de alguém que me socorra. Pega minhas mãos, enrola meu cabelo, me diz que ainda sente o mesmo porque eu preciso ouvir.

Faz de conta que continua, faz de conta que ainda nos pertencemos. Passeia suas mãos pelos meus medos e torna meus pesadelos passado. Abre outro sorriso, abre outra garrafa. Faz carinho no meu ombro e diz que fazemos parte de algo muito mais nosso.

Me segura, não me deixa cair. Reza por mim, zela por nós. Me segura porque a sensação é de cura, muito embora a loucura tenha nos guiado tão longe. Me segura porque a sensação é de liberdade, muito embora a verdade ainda fira. Me segura, me guia. Estarei aqui enquanto você estiver.


Porque passa, a paixão
E o que fica é o risco
O medo, a solidão
Sorrisos apagados

Porque depois do fim
Nada parece fazer sentido
Mas, bem ao pé do ouvido
Fica a voz que se deseja

Voz que clareia, que fraqueja
Sensação que se quer repetir
O amor que fica, o desejo
Mesmo depois de partir

Porque passa, o sentimento
E sentimos falta pelo tempo
Dos toques, dos medos
Dos carinhos doados

Porque passa, o tempo
Mas guarda por dentro
O pouco que foi real
Do que foi inventado.


De ser, de perdoar
De fingir que acabou

Incerteza de viver
Na certeza de um erro
Na certeza de um medo
Do que ainda não ficou

De fingir, mais uma vez
De fugir da sensatez
E realizar fantasias
E ver raiar o dia

Incerteza, linha
Certeza, risco

Medo de seguir.


Vem cá, do meu ladinho. Te explico direitinho como vai ser entre nós dois. Te explico, te beijo, te testo. É assim que eu começo. Depois, não importa. Não importa mesmo. Isso porque vai ser difícil resistir, já adianto. Vai ser difícil pela voz, pelo tom no telefone. Pelas ligações infinitas com gosto de fitas, das que amarram seus pulsos nos meus.

Eu prometo que te explico, mas vai ter que ser ao vivo. De rosto colado, de corpos suados, de algum jeito que você aprenda tentando várias vezes. Vai ter que ser comigo como eu sei que sempre foi em pensamento. Por cada momento, por cada sentido. Por cada "bom dia" ao pé do ouvido que talvez role de hoje por diante. E talvez adiante, talvez seja mais. Te explico, rapaz, mas você vai ter que obedecer. E seguir meus rastros, tocar meus lábios, encostar em mim até onde eu quiser.

Vem cá, do meu ladinho. Te sussurro direitinho o que me faz pirar.



Quando a gente cresce e as coisas ganham forma. É nesse exato momento que a gente nota, ou ao menos começa a notar, o quanto idealiza os arredores. É nessa hora que vêm as facilidades, as comodidades, a mania de achar que tudo deve ser como tem que ser. Na verdade, é nessa hora que a ficha cai, que o mundo adulto cerca e que a gente se pergunta coisas que antes, estejam eles por perto ou não, foram nossos pais que responderam por nós. Sobre não saber, só posso dizer uma coisa: ainda é a melhor saída.

Não sabemos o que vem depois do hoje. Sim, planejamos, organizamos, tentamos, procrastinamos. Mas, não adianta, ninguém sabe o que vem depois do relógio. E é por isso que acredito que não saber é o caminho. Quando não pensamos demais, idealizamos pessoas, imaginamos situações ou fazemos qualquer coisa que limite nossas possibilidades, essas que ainda subestimamos, as coisas fluem com mais naturalidade. Não que devamos estudar o destino ou calcular probabilidades de qualquer coisa cósmica, mas não é preciso muito para entendermos que tudo que é natural simplesmente se adapta. Sim, tudo acontece porque precisa acontecer.

Sobre não saber, ficam as minhas dúvidas sobre o próximo trabalho, sobre a próxima poesia ou a próxima paixão. Ficam as dúvidas sobre os meus medos, as certezas das minhas falhas e a mania terrível que ainda tenho de bagunçar as próprias unhas. Características pessoais? Características? Talvez. Mas me sinto muito mais à vontade quando não preciso rotular o que não sei. Aliás, sobre não saber, incluo minhas próprias questões, minhas próprias barreiras e tudo aquilo que um dia, ou ainda, não fui capaz de aceitar. Afinal, saber as coisas é alto demais e eu gosto daquilo que posso alcançar, sobretudo com o tempo.


Me floreio, anseio, temo ficar
Me revolto, me envolvo, temo amar
É que sentido não faz, algo não mais
É que sigo capaz de me sabotar

Escolho, troco, não sei o que usar
Decido, revolto, não sei como pensar
Talvez tenha chance, precise falar
Talvez minha chance esteja em mudar

De memórias, de pessoas
De caminhos a percorrer
De histórias, de loucuras
Que a vida prevê

Ao seu lado.



Quando não tivermos saída
Quando nos faltar a vida
Quando passar o tempo
E a vontade não

Quando estivermos feridos
Quando formos partidos
De coração ferido
E de pés no chão

Isso pode mudar
Se a gente mudar
Se tudo voltar
A ser o que era

Quando formos de nós
De dar fé, não de nós
Quando formos a sós
Talvez faça morada.


Te envolveria, te abraçaria tão forte que você sentiria falta de mim até quando estivéssemos juntos. Eu te beijaria, viu, mas seria tão pessoal que você perguntaria ao final de cada beijo quantos mais ainda teríamos. E passaria as mãos pelas suas costas, e sentiria o teu perfume até não poder mais.

Eu cederia, seria refém dos próprios sentimentos, se pudesse. E ficaria do seu lado mesmo que não pudéssemos nos olhar nos olhos. É sério, eu faria essas coisas, mas só porque o nosso nível de intimidade permite. Só porque o que eu sinto você sente, só porque você mente sobre isso e evita chegar tão perto.

Te envolveria, rapaz, te deixaria tonto. E me sentiria da mesma maneira, porque você sabe que o teu sorriso me derrete, tua paz me acomoda. Você sabe tudo isso, mas nem sempre se importa porque repetimos a mesma história, dia após dia. E eu mentiria, se pudesse. Evitaria o possível para que não nos sentíssemos tão sozinhos e tão juntos.

É, sozinhos e juntos. É isso, exatamente isso. Te beijaria, te encontraria, te abraçaria e não deixaria passar em branco o que você sente tão cinza. Te amaria, eu acho, e faríamos de tudo isso uma grande piada ao final do dia. Só que não.